Foz de Lumbier
O trilho que foi linha de comboio, o rio que leva séculos a abrir caminho
Saem de Ttipiaenea com o pequeno-almoço feito e as botas na mala. A estrada atravessa a bacia de Pamplona, passa por Tafalla e começa a mudar: os campos vão-se enrugando, os barrancos ficam mais profundos, e em quarenta minutos chegam a Lumbier sabendo que a paisagem que se segue é diferente de tudo o que viram antes.
A Foz de Lumbier não se anuncia. Estacionam, atravessam um portão de madeira e de repente estão no fundo de um desfiladeiro: paredes de rocha de cem metros de cada lado, o rio Irati a correr limpo e frio aos vossos pés, e os grifos —sempre os grifos— a planar sem esforço por cima de tudo.
Caminham sobre os carris do comboio
O que hoje é um caminho de terra batida foi, entre 1911 e 1955, a linha do Comboio do Irati: uma locomotiva a vapor de via estreita que atravessava o desfiladeiro carregada de madeira desde a Floresta de Irati até Pamplona. Quarenta anos de história industrial escondidos dentro de uma paisagem que parece intacta desde sempre.
O comboio desapareceu, mas o traçado ficou. O trilho entra no desfiladeiro por onde entrava a locomotiva, atravessa os dois túneis que a companhia abriu na rocha calcária —escuros, frescos, com aquele cheiro a pedra húmida dos lugares que não veem o sol— e sai do outro lado do desfiladeiro com o rio à direita e as paredes verticais tão perto que quase as podes tocar de braços estendidos.
São dois quilómetros de ida. A maioria das pessoas vai e volta tranquilamente em hora e meia, parando para olhar para cima sempre que um grifo passa perto o suficiente para se ouvir o ar entre as suas penas.
A Foz de Arbayún e os senhores do ar
A vinte minutos de carro, o rio Salazar fez à pedra o mesmo que fez o Irati: abrir caminho através dela durante milhões de anos até deixar um desfiladeiro que dá vertigens olhar de cima. A Foz de Arbayún não se percorre a pé por dentro: contempla-se a partir dos miradouros da borda, com os grifos a voar à altura dos teus olhos.
Em Arbayún vive a maior colónia de grifos de Navarra: mais de quatrocentos casais nidificam nas paredes verticais do desfiladeiro. Se fores de manhã cedo, vê-los levantar voo um a um à medida que o sol aquece a rocha e as térmicas começam a subir. É o tipo de espetáculo que não precisa de explicação nem de guia: pões os olhos no céu e pronto.
De volta com areia do rio nas botas
A descida à realidade é suave. Saem do desfiladeiro com aquele silêncio que os lugares grandes deixam, as crianças discutem sobre qual dos túneis era mais escuro, e alguém propõe parar em Lumbier para beber algo antes de voltar.
Ttipiaenea fica a quarenta minutos. A tarde em casa tem outra textura depois de um dia assim: a lareira, o jantar lento, e a sensação de que o dia rendeu muito mais do que parecia ao sair de manhã.
Como chegar desde Ttipiaenea
- Distância40 km · 38 min de carro
- PercursoNA-150 → AP-15 → Saída Lumbier
- Foz de Lumbier2 km planos, ida e volta · 1–1,5 h
- Foz de ArbayúnMiradouro a 20 min de Lumbier pela NA-178
- DificuldadeMuito baixa · Adequado a carrinhos e cadeiras de rodas
- Com criançasSim, ideal; os túneis são o momento alto